As práticas musicais nos tempos de padre Cícero



 Pesquisador do Instituto de Artes relata viagem de pesquisa a Juazeiro do Norte, CE

 A região de Juazeiro do Norte é conhecida por uma intensa atividade religiosa, pelo fluxo de beatos, rezadeiras, pagadores de promessas e, principalmente, pela devoção popular à figura do padre, santo (assim reconhecido entre seus devotos), político e fundador da cidade, Cícero Romão Batista (1844-1934).

Musicalmente, a cidade se tornou conhecida pelos benditos cantados pelos peregrinos, que se transmitem oralmente. Além disto, na casa-museu da Colina do Horto, instrumentos e CDs trazidos por seus autores como ex-votos integram um variadíssimo acervo destas materializações da devoção ao santo popular.

No âmbito do repertório de tradição escrita, entretanto, pouco se sabe das práticas musicais nos tempos do padre Cícero. Em minha pesquisa de campo em busca de fontes musicais escritas, encontrei vestígios deste passado ainda pouco conhecido: um organete que teria pertencido ao religioso, um Polyphon (espécie de vitrola mecânica) com o qual o padre teria sido presenteado e uma coletânea de música sacra.

A coletânea é o primeiro volume de Echos du Monde Religieux, publicada em Paris por Durand, Schoenewerk e Cia., provavelmente em 1885, que se encontra recolhido ao Memorial Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Esta coletânea reúne obras destinadas ao uso litúrgico na Igreja Católica (missas, motetos eucarísticos e marianos, além de partes do ofício de vésperas).

Dentre os compositores, há aqueles bastante conhecidos no meio musical, como Arcadelt, Palestrina, Haendel, Purcell, Bach, Pergolesi, Haydn, Mozart e Beethoven, e menos conhecidos, como Rink, Lotti, Weber, Martini, Leonardo Leo, Winter, Himmel, Guedron, Righini, Proch, Clari, Carissimi, Marcello e Danzi. Na capa da coletânea leem-se as seguintes anotações: “À tua glória, oh meu Deus!”, “José Joaquim Telles Marrocos”, “É do padre Cicero Romão Baptista”, data, local e a indicação de que o proprietário talvez possuísse outros volumes da coletânea: “Em 4 volumes. É do P. Cicero Romão”, “Crato 23 de Junho 1890”.

O nome do professor e jornalista José Joaquim Telles Marrocos (1842-1910), primo de padre Cícero, é recorrente ao longo da coletânea, sugerindo que este tenha tido contato com ela. Fernando Lacerda vê no desgate e em anotações – hoje ilegíveis – na partitura de “Mater Amabilis” de Mozart elementos que sugerem que esta obra tenha sido executada a partir da fonte em questão.

Padre Cícero e José Marrocos têm em comum, além do parentesco, o fato de terem estudado no Seminário da Prainha, em Fortaleza (que atualmente abriga também o arquivo da Cúria), onde, em pesquisa, não encontrei fontes musicais, mas tão-somente documentos eclesiásticos.

Outro lugar que poderia abrigar fontes seria o Seminário do Crato, onde também não encontrei tais vestígios. Em minha viagem a Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha, não cheguei a consultar a biblioteca pessoal de padre Cícero, que se encontra sob os cuidados da Casa Museu do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte.

Nesta biblioteca que conteria, segundo notícias, cerca de 500 volumes poderiam estar os outros volumes da coletânea, além de outros vestígios deste passado a ser descoberto. Pretendo continuar minha pesquisa sobre o tema, especialmente na biblioteca de padre Cícero.

Como atrativos da região visitada, sugiro, além da incrível paisagem, monumentos, sítios arqueológicos, os santuários católicos, festas religiosas e, para os músicos, as bandas das três cidades, o órgão de tubos de Barbalha e a Sociedade Lírica do Belmonte, SOLIBEL, primeira escola de música rural do país, fundada pelo simpático monsenhor Ágio, de 98 anos, músico e biógrafo de padre Cícero, que me recebeu em sua casa em 2015.

Link para execuções de duas obras que constam da coletânea:
Mater Amabilis, de Mozart

Salve Regina, de Franz Danzi (na qual o nome de José Marrocos aparece duas vezes)

Memorial Padre Cícero

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Fernando Lacerda Simões Duarte é graduado em Direito (Universidade Presbiteriana Mackenzie) e em Música, com habilitação em Composição e Regência, mestre em Música – Musicologia e doutor em Música, na área de concentração Música: Relações Interdisciplinares, pelo Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo, SP. Autor do livro Música e Ultramontanismo (Cultura Acadêmica, 2012), é segundo secretário da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música.

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(Unesp Ciência) 



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