Da casca à semente, tudo se aproveita na atemoia



Estudo da FEA comprova que fruta possui importantes propriedades funcionais
Texto Silvio Anunciação   Fotos Antonio Scarpinetti  Edição de imagem André Vieira


A atemoia, fruta híbrida produzida intencionalmente a partir do cruzamento entre a fruta-do-conde (Annona squamosa, L.) e a cherimoia (Annona cherimola), apresentou importantes propriedades funcionais para a saúde, como capacidade antioxidante e antimicrobiana. Estudo inédito da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp também revelou que a fruta pertencente à família das anonáceas (a mesma da graviola, marolo, fruta-do-conde, entre outras) possui quantidades relevantes de compostos fenólicos, como a epicatequina, além de minerais, vitamina E (tocoferóis) e ácidos graxos.Alimentos com propriedades funcionais e bioativos são aqueles com potencial para a prevenção e combate a diversas doenças. Normalmente, possuem compostos fenólicos e capacidade antioxidante, que previne e retarda a formação de radicais livres no organismo, responsáveis pelo envelhecimento precoce e doenças degenerativas.

O estudo que caracterizou e avaliou os compostos bioativos da atemoia foi conduzido pela agrônoma Maria Rosa de Moraes como parte de sua tese de doutorado defendida em junho de 2016 junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência de Alimentos da FEA. Na pesquisa, Maria Rosa de Moraes investigou a fruta integralmente, avaliando e caracterizando a casca, polpa e a semente de atemoia.

“Nossos resultados demonstraram que tanto a polpa quanto os subprodutos, como a casca e a semente, apresentaram compostos bioativos benéficos à saúde. A atemoia é bastante atrativa dada às características organoléticas como aparência, cor, sabor doce, textura e aroma. Apesar disso, a fruta não é muito conhecida pela população, possuindo um elevado preço comercialmente. Acredito que a atemoia poderia ser mais divulgada, sobretudo por conta dos compostos ricos que ela tem”, explica a autora da pesquisa.

Maria Rosa de Moraes acrescenta que, além de ampliar os conhecimentos científicos sobre a atemoia, o estudo abre perspectiva para que produtores possam incrementar a produção, utilizando, por exemplo, os subprodutos, como a casca e a semente, para reduzir os custos e agregar valor sobre o produto.

“A principal forma de consumo da atemoia é in natura, no entanto, por ser uma fruta climatérica bastante perecível pelo alto teor de umidade, rápido amolecimento da polpa e escurecimento da casca, ela pode ser processada na forma de sucos, geleias, compotas e purês. Por meio do processamento, a fruta pode ser estocada congelada ou mesmo liofilizada. Durante o processamento, uma grande quantidade de resíduos e subprodutos é gerada. Nosso trabalho demonstra o potencial desses subprodutos, que poderiam ser empregados, por exemplo, como matéria-prima para a indústria cosmética e farmacêutica.”


A pesquisa foi orientada pela professora Helena Teixeira Godoy, que atua no Departamento de Ciências de Alimentos da FEA. Parte dos estudos foi desenvolvida em colaboração com o pesquisador norte-americano Robert Smith, da Food and Drud Administration (FDA). Houve financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de nível Superior (Capes).

Atualmente, a estudiosa da Unicamp dá sequência aos trabalhos, com pós-doutorado em andamento, avaliando especificamente um composto (acetogenina), encontrado em frutos da família das anonáceas. “Na literatura científica há muitas divergências sobre este composto. Há estudos relatando propriedades benéficas e outros, características maléficas ao organismo. Vamos investigar isso em parceria com o pesquisador Robert Smith, da FDA.”

Polpa, casca e semente
Conforme a autora da pesquisa, o extrato da casca da atemoia apresentou as maiores concentrações de compostos fenólicos, quando comparada às demais frações estudadas da polpa e da semente. A casca da fruta se destacou pela elevada capacidade antioxidante e eficiente controle do Bacillus cereus e inibição do crescimento da Escherichia coliStaphylococcus aureus, bactérias ligadas a doenças transmitidas por alimentos.

Embora com menor quantidade do que a casca, a polpa da atemoia apresentou teor de fenólicos totais superior a outras frutas bastante consumidas como abacaxi, goiaba, maracujá, manga e mamão, além de contar com altas concentrações de potássio.

“Fizemos análises de concentrações de minerais. Observamos que a polpa apresentou concentração muito relevante de potássio. A atemoia tem praticamente as mesmas concentrações da banana, uma rica fonte de potássio bastante conhecida. Com a ingestão de uma fruta de 300 gramas, conseguimos consumir 20% do potássio diário de que precisamos. A polpa apresentou também concentrações consideráveis de cobre, representando cerca de 50% da ingestão diária recomendada para o nosso organismo.”

Já em relação à semente, os resultados demonstraram baixas quantidades de compostos fenólicos. Por outro lado, segundo a autora da pesquisa, a fração lipídica da semente apresentou cerca de 80% de ácidos graxos insaturados, com a predominância do ácido oléico e do ácido linoleico. Tais compostos desempenham fator preventivo em várias doenças cardiovasculares e degenerativas, conforme Maria Rosa de Moraes.

“Também encontramos tocoferóis (vitamina E), como alfatocoferol e o gamatocoferol. Isso demonstra que a semente também tem grande potencial para a utilização. Pode se fazer óleos, sobretudo na área cosmética e medicinal.”

Produção
A pesquisadora informa que a atemoia é um híbrido derivado do cruzamento intencional entre uma fruta tropical, a fruta-do-conde, muito cultivada em regiões quentes, e uma fruta subtropical, a cherimoia, considerada uma das mais saborosas do mundo, nativa das regiões andinas. “Por ser um híbrido, a atemoia possui adaptação climática intermediária, qualidade e a rusticidade da cherimoia, aliadas a facilidade de produção e menor número de sementes da fruta-do-conde.”

Maria Rosa de Moraes acrescenta que, no Brasil, as culturas de atemoia encontram-se localizadas em pontos com diferentes características climáticas. O Estado de São Paulo é o maior produtor, responsável por 44% da produção, seguido por Minas Gerais, Paraná e Bahia, cada um respondendo por 18% da produção. Os cultivos paulistas ocorrem em zonas de clima mais ameno, como Itapetininga, Paranapanema, Sorocaba, Botucatu e Pilar do Sul, de onde foram adquiridas as amostras utilizadas no trabalho junto à Associação Paulista de Produtores de Caqui (APPC).

Métodos de análise
A autora do estudo relata que foram empregados vários métodos de análise. A quantificação dos compostos fenólicos totais foi realizada pelo método espectrofotométrico de Folin-Ciocalteau, enquanto que a capacidade antioxidante dos extratos da casca, polpa e semente foi avaliada utilizando os métodos ORAC (capacidade de absorção do radical oxigênio) e ABTS. Os ensaios da atividade antimicrobiana foram realizados pelo método da microdiluição, determinando-se a concentração mínima inibitória (MIC).

Para a caracterização e quantificação dos compostos fenólicos foi utilizado um equipamento de cromatografia líquida acoplado a um espectrômetro de massas (LC-MS/MS) com fonte de ionização por electrospray (ESI), no modo negativo e analisador triplo quadrupolo.

A quantificação dos elementos minerais presentes nos extratos da polpa da fruta foi realizada por espectrometria de emissão óptica com plasma – ICP OES. O perfil dos ácidos graxos foi obtido através de cromatografia gasosa acoplada a um detector de ionização de chama (GC-FID) e a confirmação dos mesmos foi realizada por meio de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas. Foram analisados quatro dos isômeros da vitamina E (tocoferois) através da técnica da cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) com fase normal e um detector de fluorescência.

Publicação

Tese: “Avaliação e caracterização dos compostos bioativos da atemóia (Annona cherimola mill x Annona squamosa)
Autora: Maria Rosa de Moraes
Orientadora: Helena Teixeira Godoy
Unidade: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA)
Financiamento: Capes

(Jornal da Unicamp) 

 



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