O silêncio nas escolas



Estudo da Unesp avalia como o educador trabalha com a diversidade sexual e de gênero

Por Maristela Garmes

A Defensoria Pública de São Paulo propôs, em um parecer, no ano passado, a inclusão de debates sobre gênero e diversidade nas escolas brasileiras. O órgão recebe várias denúncias de discriminação escolar como a recusa de utilização do nome social, o desrespeito à identidade de gênero de travestis e transexuais, a prática reiterada de insultos contra pessoas integrantes da comunidade LGBT e agressões físicas ou ameaças contra mulheres.

O ambiente escolar, que deveria ser um local em que o estudante pudesse buscar informações e ser educado a respeito das igualdades e  diversidades entre as pessoas – entre elas a diversidade a sexual e de gênero – age de forma a se calar frente as investidas de combate à desigualdade.

Com a proposta de analisar se os educadores refletem com seus alunos sobre o tema da diversidade sexual e de gênero e quais são os limites e as possibilidades deste debate no processo educativo, usando como base os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1998, o assistente social Marco Antonio Diniz Bastianini defendeu a dissertação de mestrado pela Unesp de Franca, intitulada: A educação e a diversidade sexual e de gênero: uma análise a partir da proposta dos temas transversais na perspectiva dos educadores.

A pesquisa foi realizada em uma escola estadual de ensino fundamental de uma cidade de porte médio do interior do Estado de São Paulo. Foram pesquisados educadores que lecionam nos quatro últimos anos escolar: do 6º ao 9º ano. O assistente social explica que estabeleceu um compromisso com os educadores de não divulgar o nome da instituição e nem da cidade onde foi realizada a pesquisa, inclusive em sua dissertação.

Na primeira etapa da realização do trabalho, foram aplicados questionários em 27 educadores, e posteriormente, em uma segunda etapa, participaram seis. Nas duas fizeram parte professores das disciplinas de português, matemática, história, geografia, ciências, inglês e educação física.

Os educadores apontaram que os fatores que impossibilitam o trabalho com este tema estão relacionados à insuficiência na formação inicial e descaso por parte do poder público com a formação continuada, além do receio de não saberem como lidar com as manifestações e demandas trazidas pelos estudantes. Bastianini trabalha atualmente como orientador social de uma instituição de acolhimento para crianças e adolescentes que estão sob medida protetiva.

O estudo revelou que há muito “desconhecimento, estranhamento e equívocos” sobre este assunto por parte dos educadores: as vivências de sexualidade para além do binômio homossexualidade-heterossexualidade e as identidades de gênero trans ficaram anuladas nas falas deles, ressalta.

A partir dos dados também foi percebido que os educadores incluem muito pouco a temática no currículo de suas disciplinas, apesar de considerarem importante esta discussão dentro do meio escolar.

Também não há referência à proposta dos temas transversais quando os educadores falam sobre suas práticas educativas. Os “temas transversais” dizem respeito a conteúdos de caráter social, que devem ser incluídos no currículo do ensino fundamental, não como uma área de conhecimento específica, mas como conteúdo a ser ministrado no interior das várias áreas estabelecidas, além de fazerem parte do Parâmetros Curriculares Nacionais, documento que orienta as escolas a construírem seus currículos.

Segundo ele, tais ações educativas ocorrem “de forma residual e descontinuada”, pois acabam não sendo planejadas e ocorrem somente quando se faz necessário, principalmente quando há manifestações dos estudantes. As respostas dos educadores para estas demandas são marcadas pelo “viés disciplinador”. “Os educadores se manifestam pela questão colocada, mas não encaminham para reflexões mais aprofundadas”, explica.

Buscando solução

De acordo com Bastianini, na questão da diversidade sexual e de gênero, o Estado pouco se faz presente no desenvolvimento de propostas consistentes que estimulem as ações dos educadores. “Para que se alcance novos avanços nesta área, é preciso investimento em formação inicial e continuada dos profissionais de educação”, explica.

“O Estado também deveria ofertar infraestrutura nas instituições educacionais e ampliar os espaços de gestão dos sistemas educacionais para a participação de outros setores da sociedade”, reforça. Como exemplo, ele cita os movimentos sociais organizados que tratam desta questão e, ainda, a inclusão de outros profissionais especializados que possam contribuir com trabalhos de equipes nas escolas.

O trabalho foi orientado pela professora Eliana Bolorino Canteiro Martins, professora do curso de Serviço Social da Unesp de Franca.

Portal da Unesp



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