A ciência sedutora que habita prateleiras



Em tempos de cliques e curtidas, a divulgação científica feita em livros se destaca pela capacidade de explorar narrativas e mergulhar em cada assunto

TEXTO: BEATRIZ GUIMARÃES DE CARVALHO | ESPECIAL PARA O JORNAL DA UNICAMP
FOTOS: ANTONINHO PERRI | ANTONIO SCARPINETTI
EDIÇÃO DE IMAGEM: LUIS PAULO SILVA

A divulgação científica tem encontrado novos formatos e canais de propagação ano após ano, desde as conversas bem-humoradas registradas em podcasts e vídeos até as breves pílulas de conhecimento espalhadas via redes sociais. Sem contar os tradicionais jornais e revistas, hoje presentes também na internet, que continuam tendo importante papel na popularização das descobertas e discussões do universo da ciência.

Neste cenário de tantas possibilidades interativas, instantâneas e de fácil disseminação, engana-se quem pensa que os livros de divulgação científica perdem seu valor ou ficam fadados ao esquecimento nas prateleiras de bibliotecas e livrarias. Talvez seja até o contrário e, em meio aos novos caminhos, a relevância do livro fique ainda mais evidente.

“Apesar da enorme disponibilidade de informação na internet, ficamos perdidos diante de tanto conteúdo de má qualidade, superficial ou de fontes duvidosas. Os livros ocupam um espaço que, por mais que digam que está em extinção, não será substituído”, afirma Germana Barata, pesquisadora na área de comunicação da ciência e professora do Mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp.

Para ela, os meios de divulgação da ciência, por possuírem perfis e demandas diferentes, conseguem conversar entre si e se complementar. “Não se trata de simples concorrência”, defende a pesquisadora. É o caso de conjuntos de postagens de redes sociais que se transformam em livros ou de canais de vídeos que ganham programas de televisão.

Foto: Divulgação

 

 A pesquisadora Germana Barata: “Os livros ocupam um espaço que, por mais que digam que está em extinção, não será substituído” 

De acordo com Simone Pallone, jornalista e pesquisadora do Labjor, o livro é um meio interessante para divulgar ciência e tecnologia graças à sua capacidade de reinvenção e de atingir diferentes grupos de pessoas. “Muitos livros escritos por cientistas falam a um público amplo, despertam o interesse de leigos”, argumenta. “Origem das espécies, por exemplo, no qual Darwin apresenta a Teoria da Evolução, é um livro de divulgação científica cuja relevância nem precisamos comentar. Carl Sagan é um bom representante da literatura de ciência para público geral, assim como o Oliver Sacks”, ressalta.

“Autores-cientistas” como estes vêm garantindo, nas últimas décadas, o espaço da divulgação científica em listas de best-sellersde todo o mundo, além de nomes como Stephen Hawking, Richard Dawkins e Yuval Noah Harari, cuja obra Sapiens (L&PM) figura entre os 20 livros mais vendidos no Brasil em 2017, segundo levantamento parcial do site Publish News, especializado no mercado editorial. 

Foto: perri

 

 A pesquisadora Simone Pallone: “Muitos livros escritos por cientistas falam a um público amplo, despertam o interesse de leigos” 

Um repositório de ideias e conhecimento

Uma das principais vantagens de fazer divulgação científica em livro é que, por conta do maior espaço disponível e do tempo de produção mais longo, torna-se possível mergulhar mais profundamente no assunto, fazer um levantamento histórico detalhado e trabalhar os variados tópicos que circundam um mesmo tema. Na visão do físico Marcelo Knobel, reitor da Unicamp, “o livro serve como um repositório de ideias acumuladas até um certo ponto, um resumo de tudo aquilo que se conhece sobre aquele assunto naquele momento”. Ele destaca também que o livro permite explorar uma escrita mais lúdica, prazerosa e até mesmo divertida, dependendo do público que se espera atingir.

Mas dar vida a um texto dinâmico, descomplicado e, ao mesmo tempo, cientificamente correto não é fácil nem para os cientistas (já que o desenvolvimento dessa habilidade raramente faz parte da formação acadêmica), nem para os profissionais da comunicação, que têm de contornar o desafio da falta de especialidade nas áreas sobre as quais escrevem.

Encontrar o equilíbrio na linguagem é uma dificuldade existente em todas as formas de divulgação científica, mas pode ficar mais perceptível no livro. “O desafio é atrair o leitor para que ele passe da primeira página e continue lendo a obra até o final com interesse”, destaca Knobel, que é coordenador da coleção Meio de Cultura, especializada em divulgação científica e publicada pela Editora da Unicamp.  

Foto: Perri

 

O reitor Marcelo Knobel, coordenador da coleção Meio de Cultura: “O desafio é atrair o leitor para que ele passe da primeira página e continue lendo a obra até o final com interesse” 

Novos olhares e narrativas

A ideia de reunir novos olhares sobre a ciência e a tecnologia – incluindo episódios de fracassos e controvérsias – em textos acessíveis, capazes de envolver leitores com pouco ou nenhum conhecimento prévio no assunto, é o fio-condutor da Meio de Cultura. Criada há dez anos, a coleção possui 14 volumes lançados, com conteúdos que vão da arqueologia à matemática, de Einstein a Newton, da mente humana à gastronomia, dos jogos à farmacologia.

Além de textos com linguagem acessível, a coletânea traz ao público brasileiro obras de divulgadores de fora do eixo anglo-saxão, como, da Argentina, Itália e Espanha. Dois dos livros são assinados por brasileiros: Ciência: use com cuidado, do doutor em Ciências Sociais e jornalista Marcelo Leite, e Um esqueleto incomoda muita gente…, do bioantropólogo e arqueólogo Walter A. Neves.

Jornalista de ciência há mais de 30 anos e autor de Promessas do Genoma (Editora Unesp) e Os alimentos transgênicos (Publifolha), Leite se diz adepto da divulgação científica feita com certos toques de literatura. “Muitas vezes, quando se pensa em divulgação, não se pensa em narrativa, algo que fisgue o leitor que não tem interesse prévio”, comenta. Em Ciência: use com cuidado, o autor reúne textos publicados na coluna Ciência em Dia, no jornal Folha de S.Paulo, e oferece um pós-escrito com atualizações, fontes adicionais e pistas sobre os bastidores do jornalismo científico. Sejam sobre biotecnologia ou mudanças climáticas, os artigos contam histórias capazes de aproximar do leitor comum os personagens e instituições que habitam o universo da ciência.

Já o livro de Neves combina estudos de caso, ilustrações e fotos para revelar o trabalho minucioso e multidisciplinar que se esconde por trás dos estudos de esqueletos humanos pré-históricos, mostrando ao leitor o que faz um bioantropólogo especializado nessa área. 

Foto: Divulgação

 O jornalista Marcelo Leite, autor de “Ciência: use com cuidado”: “Muitas vezes, quando se pensa em divulgação, não se pensa em narrativa, algo que fisgue o leitor que não tem interesse prévio” 

Ao longo da obra, é possível ter ideia da imensidão de registros sobre história e comportamento conservados nos ossos de povos já extintos, informações úteis para compreender a vida dessas sociedades e sua distribuição geográfica. Além disso, o autor recupera a trajetória da bioantropologia no Brasil e, como se quisesse preparar aqueles que desejam ingressar na profissão, aponta as limitações das pesquisas feitas no país, mas sem deixar de destacar que se trata de “um campo fascinante, talvez um dos mais fascinantes aos quais alguém pode se dedicar”.

Da academia ao mercado

Escrever um bom livro de divulgação científica requer grande investimento de tempo e energia. Visto que o mercado editorial do país é bastante restrito, os cientistas e comunicadores brasileiros que se aventuram nessa estrada, em sua maioria, não estão em busca de retorno financeiro, e sim procuram contribuir para o importante movimento de aproximação entre ciência e sociedade, essencial ao exercício da cidadania, ao aprimoramento das políticas públicas e a uma produção científica cada vez mais comprometida com as dimensões sociais.

Apesar de se tratar de uma missão nobre, alguns fatores atrapalham o brilho dos livros de divulgação científica no Brasil. Um dos principais motivos é que falta incentivo a esse tipo de publicação dentro das próprias instituições de ensino e pesquisa, especialmente no que diz respeito a áreas como matemática, física, química e biologia. “O livro não tem a mesma força que um paper, por incrível que pareça. É algo que não é estimulado nas avaliações, nas próprias universidades”, afirma Knobel.

A pesquisadora Germana Barata também acredita que exista, dentro da academia, pouco ou nenhum estímulo à produção de livros de divulgação, mas vê “cientistas que se apaixonam pela escrita de livros e percebem que através deles podem atingir e impactar um público muito maior do que a escrita de artigos científicos”. Ela conta que iniciativas como a criação da aba “Educação e Popularização de Ciência & Tecnologia” na plataforma do currículo Lattes prometiam um aumento na visibilidade da produção em divulgação científica, mas acabaram não tendo “peso” suficiente para gerar um real incentivo aos pesquisadores. “Para mudar, é preciso incentivar a divulgação como atividade estratégica para dialogarmos com a sociedade. Editais voltados para a publicação de livros de divulgação podem ser um caminho para catalisarmos essa área”, completa.

Jornal da Unicamp



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