Unicamp tem primeiro professor indígena



Docente participa de disciplinas da graduação e da elaboração de dicionário de dialeto Kaingang falado por apenas 5 pessoas 

Texto: PATRÍCIA LAURETTI
Fotos: ANTONINHO PERRI
Edição de imagem: LUIS PAULO SILVA

A listagem de disciplinas da graduação em Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp traz algo inédito neste segundo semestre de 2017: o nome do professor indígena Selvino Kókáj Amaral. Ele é um dos responsáveis pelas disciplinas Línguas Indígenas I e Tópicos de Línguas Indígenas. Selvino foi contratado por meio do “Programa Professor Especialista Visitante em Graduação”, da Pró-Reitoria de Graduação (PRG), e dá aulas sobre sua língua materna, o Kaingang, aprendido em casa, na comunidade de Guarita, no Noroeste do Rio Grande do Sul.

Como professor visitante, Selvino também ministra o curso extracurricular “Língua Kaingang viva: pesquisa e prática em uma língua Jê”, além de palestras abertas ao público e reuniões de trabalho com docentes e alunos. Outra participação importante do indígena na Unicamp é a finalização de um dicionário escolar do dialeto Kaingang paulista, que já vem sendo elaborado pelo grupo de pesquisa liderado pelo docente Wilmar D’Angelis.

 

Foto: Perri
O professor Selvino Kókáj Amaral em sala de aula no Instituto de Estudos da Linguagem: “pesquisa e prática em uma língua Jê”

 

O dialeto é falado atualmente por apenas cinco indígenas nas aldeias de Icatu (município de Braúna) e Vanuíre (município de Arco-Íris), no Oeste Paulista. Havia seis falantes do dialeto, até o falecimento de Dona Lídia Iaiati de Campos, em julho. Dias antes a equipe de pesquisadores esteve na aldeia e fez os últimos registros dos ensinamentos da senhora indígena.

A contratação do professor Selvino foi defendida pela Coordenação do Bacharelado em Linguística, a partir de proposta do professor Wilmar D’Angelis, que divide a responsabilidade com o indígena pelas disciplinas da graduação. Líder do grupo de pesquisa “InDIOMAS – Conhecimento de Línguas Indígenas e Línguas de Sinais na relação Universidade & Sociedade” ele coordena as linhas de pesquisa “As línguas do ramo Jê Meridional e seus dialetos” e “Fonologia e ortografia de línguas indígenas”. Também coordena o “Projeto Web Indígena”, em parceria com a ong Kamuri, voltado à inclusão digital proativa de línguas e comunidades indígenas. O projeto, que também tem a participação de Selvino, lançou em 2008 o site “kanhgag.org” (o primeiro totalmente em língua indígena no Brasil0.

A língua Kaingang é a terceira mais falada entre os indígenas também porque a etnia é a terceira com maior população no Brasil, concentrada no Rio Grande do Sul. Em segundo lugar, de acordo com dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), está o povo Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul e em primeiro os Tikuna, residentes no Amazonas. O professor Wilmar afirma que um pouco mais da metade da população Kaingang é falante da língua nativa.

Há um grande interesse pela língua Kaingang por causa das suas características, especialmente a fonética. O Kaingang pertence a família linguística “Je”, uma família que só ocorre no território brasileiro. “A língua tem uma fonologia bastante rica, com padrões silábicos tão complexos quanto o português”, ressalta Wilmar. Porém aprender Kaingang pode ser bem mais difícil para quem fala português do que aprender tupi, observa o linguista. Do ponto de vista da pronúncia e dos padrões sonoros, o Kaingang é uma língua diferente”. Ela tem muito mais vogais, com padrões de funcionamento e combinações específicas.

“Não é uma língua de flexão como português ou como são, parcialmente, as línguas tupi. São importantes na língua Kaingang as marcas de aspecto que levam em conta os formatos dos objetos e suas posições espaciais, por exemplo”

Para Selvino as disciplinas na Unicamp não têm o objetivo de ensinar a falar o Kaingang, mas pensar sobre as características da língua. A experiência na Universidade ele também vai levar para as aldeias, nas aulas que oferece nas comunidades indígenas. “Eu sempre trabalho com palestras no Rio Grande do Sul e em algumas comunidades, com alunos que estão entrando nas universidades federais”, complementa. O professor indígena aprendeu o português somente aos 12 anos.

 

Foto: perri
O professor Wilmar D’Angelis (à esq.), coordenador das pesquisas, e Selvino Kókáj Amaral: trabalho colaborativo

 

O método de trabalho de Selvino segue a maneira como o professor Wilmar afirma gostar de trabalhar, que é de forma colaborativa. “Nós vamos focar os cursos em aspectos da língua, mas também queremos construir uma pesquisa colaborativa. A partir de determinado momento, os alunos vão escolher tópicos sobre a língua e o professor vai ser o falante que eles irão entrevistar ao longo do próprio curso para produzir hipóteses e tirar conclusões sobre aspectos da língua”.

Dicionário

A pesquisa para a elaboração do dicionário Kaingang paulista ganhou novo fôlego com a participação do professor Selvino. O projeto vem desde 2013, e já contou com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Preac) da Unicamp, além da própria Funai e da ong Kamuri.

“Foram os próprios indígenas que nos pediram um dicionário, mas depois começamos a fazer um trabalho mais amplo porque os professores indígenas aqui de São Paulo não falam a língua com falantes nativos, só os velhos”. O grupo de trabalho fez várias  oficinas junto com os indígenas para a produção do dicionário. “O processo de trabalho foi afinar a ortografia, melhorar a pronúncia e assimilar o conhecimento dos professores indígenas, sempre junto com os falantes mais velhos”.

A ideia é elaborar um dicionário escolar que possa ser usado para ensinar as crianças. “É uma maneira de registrar e conservar o que for possível desse dialeto de São Paulo que só tem alguns falantes. É um dialeto em desaparecimento e sua sobrevivência depende desse registro”, pontua.

O linguista considera um ganho para a Universidade a presença de Selvino como docente no IEL. “Temos a possibilidade de formar pesquisadores que trabalhem junto dos falantes indígenas na perspectiva que eu defendo e pratico, que é a da pesquisa colaborativa. As comunidades indígenas e as línguas indígenas não são nossos objetos de pesquisa, mas nossos parceiros”.

O professor também ressalta a oportunidade de aproximar um pesquisador indígena do universo acadêmico. “São poucos indígenas que conseguem fazer mestrado, doutorado. É um caminho muito longo, difícil e complicado para eles e não é necessário todo esse caminho para uma pessoa que tem a intuição linguística como o Selvino tem. Na Unicamp ele também está se formando e desenvolvendo estratégias para continuar o trabalho garantir uma continuidade, conquistando cada vez mais autonomia para falar e pensar a sua própria língua”.

Silvino tem o projeto de escrever seu próprio livro também e será sobre a linguística Kaingang. “Minha formação não é acadêmica, mas é intelectual mesmo. A experiência serve de preparação para que eu possa escrever o meu livro que poderá servir tanto para as universidades como para as escolas de Ensino Médio e Fundamental”.

Jornal da Unicamp



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