Rock foi canal de expressão de jovens que cresceram na ditadura



Letras do período revelam sonhos com a redemocratização, mas também a perda de ilusões com as crises econômicas

Por Valéria Dias

O rock nacional dos anos 1980 foi o canal de expressão da juventude que cresceu nos anos 1970 durante a ditadura militar. “O rock exerceu esse papel da mesma forma que a MPB foi o canal de expressão da juventude mais politizada dos anos 1960”, aponta o historiador Daniel Cantinelli Sevillano. Segundo ele, as bandas que surgiram no Brasil no período também eram politizadas, mas isso se deu de acordo com a produção musical da época. Houve também, de certa forma, uma consolidação da indústria fonográfica e, com o aval dela, o rock nacional tomou conta das rádios brasileiras.

Sevillano realizou uma pesquisa em que estudou como a utopia e a distopia estiveram presentes nas letras das músicas do rock brasileiro da década de 1980. Em sua tese, ele explica que a utopia é a fase de 1982 a 1985 e compreende os sonhos que foram surgindo no começo dos anos 1980 com o final da ditadura: o retorno das liberdades, as eleições para governador e a censura que, aos poucos, vai sendo extinta. “Na utopia se pensa numa ideia de comunidade para o Brasil e como ele vai se desenvolver”, explica o historiador. Com a posse de José Sarney como presidente da República, em 1985, o País entra no caos econômico e todos esses sonhos se desfazem: é a distopia, fase que vai até 1989.

Utopia

 


O historiador Cantinelli Sevillano: utopia e distopia aparecem em letras das músicas – Foto Marcos Santos/USP Imagens

 

No início dos anos 1980, surgem as primeiras bandas no Rio de Janeiro: Blitz e Barão Vermelho lançam seus álbuns em 1982. No ano seguinte, é a vez dos Paralamas do Sucesso. Já em São Paulo, em 1984, os Titãs lançam o primeiro disco, com uma pegada bastante pop. “Nesse período, as letras dessas bandas falavam muito sobre o culto ao prazer, à liberdade, e são mais melódicas e ingênuas, por quase não tratarem de temas políticos e sociais”, diz o pesquisador. Um exemplo é Você não soube me amar, da Blitz: “Sabe essas noites / Que cê sai / Caminhando, sozinho / De madrugada / Com a mão no bolso (na rua)”.

As letras dessas bandas falavam muito sobre o culto ao prazer, à liberdade, e são mais melódicas e ingênuas.”

 


Álbum do Legião Urbana – Foto: Wikimedia Commons

 

Ainda em São Paulo, em 1985, é a vez do Ira! lançar o primeiro disco. Vinda do movimento punk, a banda fugia um pouco do que era produzido no Rio. “Era uma banda mais underground, mas eles precisaram se reconfigurar para entrar no mercado fonográfico, tanto que o primeiro álbum recebeu o nome de Mudança de Comportamento”, comenta.

Em 1985, o Legião Urbana, grupo de Brasília, lançou o primeiro trabalho fonográfico. Na capital federal, eram os jovens de classe média e alta, representados por filhos de diplomatas e professores da Universidade de Brasília (UNB) que podiam viajar para o exterior e trazer as novidades musicais. Capital Inicial e Plebe Rude também saíram desse mesmo contexto.

O historiador diz que, de modo geral, as bandas de Brasília e de São Paulo tinham letras um pouco mais politizadas. Nessas duas cidades os jovens foram muito influenciados pelo movimento punk, nos anos 1970. “Em São Paulo, isso foi mais forte na periferia, então as letras tinham um pouco mais de contestação social. Já em Brasília era algo mais ligado à imagem.”

Distopia

 


Foto Marcos Santos/USP Imagens

 

Depois das eleições presidenciais de 1985, vários planos econômicos dão errado e surge um questionamento sobre como será o País dali para a frente: é a distopia. Entre 1985 e 1986, são lançados três álbuns considerados grandes marcos na música brasileira: Dois (Legião Urbana), Selvagem? (Paralamas do Sucesso) e Cabeça Dinossauro (Titãs).

Dois foi importante pois consolidou a Legião Urbana como uma grande banda nacional. O disco não apresentava uma conotação política e social, com exceção das músicas Índios e Fábrica. Mas o interessante é que o primeiro disco, de 1984, é muito mais politizado, apesar de ter saído durante a ditadura, do que o disco Dois, que saiu no período da redemocratização”, observa.

 


Álbum dos Titãs – Foto: Wikimedia Commons

 

Já o terceiro disco da Legião, Que País é Esse, de 1987, trouxe músicas compostas uma década antes na época do Aborto Elétrico, precursor do grupo. A censura proibiu a execução pública da faixa Conexão Amazônica: “Os tambores da selva já começaram a rufar / A cocaína não vai chegar / A cocaína não vai chegar / Conexão amazônica está interrompida”. Entretanto, a faixa-título não sofreu qualquer intervenção: “Nas favelas do Senado, sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a Constituição / mas todos acreditam no futuro da nação”. Sevillano questiona: “Por que censurar uma faixa e não censurar a outra?”

No disco Selvagem?, a sonoridade dos Paralamas permanece, mas as letras mudam e passam a falar de problemas políticos e sociais, como na faixa-título: “O governo apresenta suas armas / Discurso reticente, novidade inconsistente / E a liberdade cai por terra / Aos pés de um filme de Godard”. Aqui há uma referência clara à censura do governo Sarney, que proibiu a exibição do filme Je Vous Salue, Marie, de 1985, do diretor franco-suíço Jean-Luc Godard. “A censura parecia ser mais moral do que política”, aponta o pesquisador.

Os Titãs, que nos dois primeiros álbuns apresentavam músicas com forte pegada pop, mudaram totalmente em Cabeça Dinossauro. “Praticamente todas as faixas trazem alguma contestação social ou política: Polícia, Estado Violência, Igreja, Bichos Escrotos, Família, Homem Primata.”

O Brasil é o país do futuro

 


Foto Marcos Santos/USP Imagens

 

O pesquisador finalizou a tese analisando a letra de 1965 – Duas Tribos, do álbum As Quatro Estações, da Legião Urbana, lançado em 1989, mesmo ano da primeira eleição direta para a presidência da República do Brasil depois da ditadura militar. A disputa entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva representava a escolha entre dois projetos distintos, um mais liberal, outro mais social: serio o início de uma nova utopia?

 


Álbum de Os Paralamas do Sucesso – Foto: Wikimedia Commons

 

Na letra, aparecem vários elementos que fazem referência às décadas de 1960 e 1970. Vale lembrar que Renato Russo, o líder da banda, nasceu em 1960: “Tinha arma de verdade / Tinha arma nenhuma / Tinha arma de brinquedo /Eu tenho autorama / Eu tenho Hanna-Barbera / Eu tenho pêra, uva e maçã / Eu tenho Guanabara / E modelos revell / O Brasil é o país do futuro”.

“Em 1987, Renato Russo perguntava Que País é Esse?. Em 1989, ele vai dizer que ‘o Brasil é o país do futuro’. Mas esse ‘país do futuro’ é aquele de quando ele era criança. Então ele vai buscar a utopia no passado. É uma utopia que fica só no pensamento”, finaliza o pesquisador.

Os dados fazem parte da tese de doutorado Pro dia nascer feliz? Utopia, distopia e juventude no rock brasileiro da década de 1980, defendida por Sevillano na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob a orientação do professor Francisco Cabral Alambert Junior.

Jornal da USP



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