Inteligência artificial a serviço da justiça



Pesquisadores da Unicamp vão reconstruir visual e textualmente eventos de interesse da sociedade

Texto: DANIEL BARBOSA NOGAROLI (Labjor) | Especial para o Jornal da Unicamp
Fotos: ANTONIO SCARPINETTI
Edição de imagem: LUIS PAULO SILVA

As atividades policiais, principalmente a forense, são abordadas por diversas séries e filmes, principalmente de Hollywood. Com equipamentos, ferramentas e softwares de ponta, os personagens dessas histórias conseguem resolver crimes e eventos olhando o reflexo de um parafuso em uma placa de carro, por exemplo. Toda essa ficção bem que poderia ser verdade, facilitando a resolução de diversos casos reais. Para um grupo de cientistas motivados a descobrir, entender e mapear grandes eventos, uma parte dessas histórias pode tornar-se realidade em 2022.

O professor Anderson Rocha, do Instituto de Computação (IC) da Unicamp, após visitar e conhecer diversos projetos em universidades internacionais, desenvolveu uma ideia que visa contar ou recontar eventos de uma forma mais ampla e completa, simulando a presença de um ator onipresente em todos esses acontecimentos por meio da inteligência artificial. “A ideia é justamente trabalhar com a possibilidade de recontar algo que aconteceu. Reconstruiremos tudo que esteja relacionado a esse evento, tanto visual quanto textualmente. Queremos contar tudo de novo, de forma que possamos fazer inferências, investigações sobre suspeitos, entender o que aconteceu e interpretar os fatos ocorridos”, conta Rocha.

Alinhado a esse objetivo, o projeto foi intitulado “DéjàVu”, representando o “contar novamente”. Essa linha de pesquisa, segundo o professor do IC da Unicamp, vai ao encontro da necessidade mundial de entender e compreender, por completo, episódios do mundo real e do virtual para resolução e tomada de decisões. Após um ano sabático no exterior conhecendo diversos projetos, o pesquisador brasileiro conseguiu reunir um grupo de especialistas em diversas áreas complementares – brasileiros e estrangeiros – para desenvolver a pesquisa. “O projeto nasceu, justamente, dessa necessidade de entender eventos, no mundo físico e no virtual. A partir disso, enumeramos algumas linhas de investigação que seriam necessárias para se ter uma primeira solução para um problema complexo” conta Rocha.

 

Foto: Scarpa
O professor Anderson Rocha, coordenador do projeto temático: “Queremos contar tudo de novo, de forma que possamos fazer inferências, investigações sobre suspeitos, entender o que aconteceu e interpretar os fatos ocorridos”

 

A linha de pesquisa coordenada por Anderson Rocha visa resolver uma série de questões pouco discutidas na área forense. “Temos um grande desafio inicial, que é a questão da coleta de dados dos eventos de interesse. Depois, interessantes desafios científicos relacionados à busca da coerência espaço-temporal dos eventos, a sincronização das ações para saber o que aconteceu em qual momento e em que lugar. A partir disso, surgem outros desafios como descobrir padrões, eventos associados, encontrar objetos, lugares e pessoas de interesse, por exemplo. Isso tanto para acontecimentos no mundo real como no virtual”, observa o pesquisador. No final, o objetivo é desenvolver um conjunto de soluções de software que, por meio da inteligência artificial, consiga fazer todo esse mapeamento de informações. “A meta é criar um arcabouço geral, um conjunto de soluções que seja capaz de buscar informações de interesse, organizar temporal e espacialmente os dados e depois pontuar fatos importantes relativos ao ocorrido”, completa Rocha.

Para o professor, a utilização apenas de câmeras de segurança não possibilita a compreensão, por completo, de todos os fatos ocorridos em um evento. Por isso, a grande ideia do projeto é utilizar dados de fontes heterogêneas – como postagens em redes sociais (textos, imagens e vídeos) – para complementar essa investigação, detectando o que é verdade e o que é mentira, bem como o momento exato em que tal conteúdo foi postado. Logo, ao juntar as informações gravadas por dispositivos de segurança com publicações de pessoas comuns, como vídeos e textos, torna-se possível recontar o fato de forma mais completa. “Queremos propor aqui um conjunto de soluções que sejam capazes de receber dados de diferentes fontes heterogêneas, como texto, posts, imagens e vídeos, e encontrar uma maneira de sincronizar tudo no tempo, tanto no âmbito visual como no espacial. A partir disso, será possível encontrar informações coerentes para fazer qualquer tipo de inferência” afirma o pesquisador. O professor aponta um exemplo de aplicação: “Imaginem um ataque terrorista em que alguém explode uma bomba em um local muito movimentado; queremos entender tal evento, quem participou, sua dinâmica e tudo o que for relacionado ao mesmo. Para isso, podemos usar informações de pessoas que estavam próximas ao evento e postaram nas redes sociais, imagens e vídeos, dados de CCTVs que eventualmente possam estar no ambiente, etc. Com a ajuda da inteligência artificial conseguiremos sincronizar tudo e realizar poderosas inferências a respeito do ocorrido.”

Apesar de a ideia ser desenvolvida para a área forense, o professor afirma que esse projeto pode ser usado para outros fins, como no trânsito, manifestações, shows entre outros acontecimentos. Com a alteração de certo algoritmos, é possível adequar a utilização dessa tecnologia para diversas ocasiões que necessitem de maior compreensão ou diversificação de visões. “Tudo isso envolve situações que, embora tenham motivos diferentes, requerem uma atenção especial no contexto de resolver o evento, de buscar informações relacionadas associadas e sincronizá-las”.

Dada a complexidade desse projeto, bem como os grandes desafios, o pesquisador reforça a necessidade de ter uma equipe empenhada e altamente especializada para o desenvolvimento das soluções desejadas. Para isso, em breve serão realizadas chamadas aberta para pesquisadores de Doutorado e Pós-Doutorado, com bolsas, com o intuito de atrair talentos para colaborar com o projeto DéjàVu.

A pesquisa será financiada na Modalidade Temático pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e conta com parceiros nacionais, seja para o desenvolvimento do projeto, como no caso do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), ou de forma colaboradora, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Internacionalmente, a pesquisa terá parceiros importantes como a Universidade de Purdue e a Universidade de Notre Dame, ambas localizadas nos Estados Unidos; a Politécnico de Milão e a Universidade de Siena, que ficam na Itália; a Universidade de Warsaw, da Polônia; e a Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura. A Polícia Federal (PF) e a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA) norte- americana também colaborarão com o projeto.

Jornal da Unicamp



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