Relatório inédito da ONU faz diagnóstico da prática esportiva no país com contribuição da Unicamp



 

 

Autor: Patrícia Lauretti
Fotos: Antonio Scarpinetti
Edição de imagem: Paulo Cavalheri

Vários corredores largam na corrida da Unicamp. Em evidência estão as mulheres. A maioria veste camisetas do evento na cor laranja. Há uma grande faixa onde está escrito Largada e Chegada

 

 

Volta da Unicamp: fenômeno da corrida de rua trazido para a Universidade

 

 

No próximo domingo, 29 de outubro, mais de 1.400 corredores vão se concentrar em frente à Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp. A largada da 8ª Volta da Unicamp, competição que extrapola a comunidade universitária, com participações de pessoas de toda a região, está marcada para as 8 da manhã. Desde que começou a promover o evento a Universidade trouxe para dentro do campus um fenômeno que foi o aumento das corridas de rua em todo o País. Fenômeno que a professora Helena Altmann, da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, aborda no artigo “Atividades Físicas e Esportivas e Mulheres no Brasil”, escrito a convite do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em complemento ao documento inédito “Movimento é Vida: Atividades Físicas e Esportivas para Todas as Pessoas – Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano do Brasil”.

O relatório, segundo a docente, é um grande levantamento sobre a prática de atividades físicas esportivas no Brasil a partir de diferentes questões. Além de Altmann, mais duas professoras da Unicamp foram convidadas a escrever o que o PNUD chama de background paper: Heloisa Reis, também da FEF, assina “Atividades Físicas e Violências: o futebol como referência” e “Poder, transparência e democracia nas gestões esportivas”, sendo o último artigo em coautoria com Mariana Zuaneti Martins. Já a professora Larissa Galatti, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), escreve sobre “AFEs, Desenvolvimento Humano e Esporte de Alto Rendimento”.

De acordo com Altmann o relatório revela desigualdades em relação à prática de atividades esportivas, a partir de vários marcadores sociais de diferença, como o gênero ou a questão racial. “De um modo geral no Brasil os homens praticam mais atividades físicas do que as mulheres e as mulheres negras praticam menos que as mulheres brancas, por exemplo. Os marcadores estabelecem diferenças bem significativas em termos de acesso”.

 

 

Helena Altmann durante a entrevista. Ela está de óculos de armação azul e quadrada e veste uma blusa sem mangas na cor rosa. Cabelos curtos.

 

 

A professora Helena Altmann foi uma das autoras convidadas pelas Nações Unidas

 

 

 

 

 

A prática de atividades físicas integra as estratégias do PNUD de desenvolvimento humano e sustentável. Para escrever o artigo, a professora partiu dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pelas Nações Unidas. O quinto item refere-se a “Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”. Quando descreve esse objetivo, a página do site do PNUD traz uma foto de meninas jogando futebol. “A imagem que eles escolheram para ilustrar o objetivo é uma imagem de esporte, trazendo uma ideia de quanto o esporte pode promover a igualdade de gênero”, observa.

A imagem das meninas, num ambiente de alguma pobreza, numa postura ativa e protagonista chamou a atenção da professora e pesquisadora. Este foi o início da reflexão que ela procura fazer no artigo.

Utilizando pesquisas do IBGE a professora evidencia a relação entre a desigualdade de gênero nas práticas esportivas e o mundo do trabalho, já que as mulheres ainda são as grandes responsáveis pelo trabalho doméstico. A docente ainda cita pesquisas da Unicamp realizadas em parceria com Espanha, analisando a regularidade das atividades realizadas por meninas e meninos de oitavo e nono anos do Ensino Fundamental em escolas públicas da Região Metropolitana de Campinas.

Os estudos mostraram que os meninos praticam quase um dia a mais de atividades esportivas na semana. Além disso há o problema da grande concentração de garotos praticando só o futebol, o que revela a pouca oferta de outras atividades, como também está sendo constatado em outra pesquisa que a docente traz no artigo, a partir de uma análise dos projetos sociais voltados ao esporte e financiados com verba da Prefeitura Municipal de Campinas. “Há um número muito maior de meninos sendo atendidos por esses projetos e a predominância da modalidade do futebol”, comenta.

Sobre o evento de domingo na Unicamp, a professora vê a corrida de rua como “um elemento bastante motivador que propicia maior regularidade da atividade esportiva até a adesão a uma prática regular”. Segundo a professora, conforme mostrou um trabalho de iniciação científica também orientado por ela, as mulheres ingressam na corrida por razões externas à própria corrida como a partir do convite de um amigo, da vontade de emagrecer ou simplesmente porque faz bem para a saúde. Porém a inserção nas competições “propicia uma ressignificação dessa experiência que passa a ser vista como treinamento e, nesse caso, os objetivos de correr se tornam mais ligados ao campo da corrida propriamente dita. Ela busca diminuir o tempo, aumentar a distância percorrida, melhorar o desempenho, além de ligar as competições às viagens”.

Helena Altmann ressalta a necessidade de que as pessoas tenham a oportunidade de praticar atividades esportivas e diversificadas, no ambiente escolar, por meio das políticas públicas, ou no ambiente universitário.

Em relação às mulheres, ela diz que o esporte traz a possiblidade de se estabelecer outra relação com o corpo “não de um corpo que vai ser apreciado porque é bonito mas um corpo eficiente, dinâmico, saudável, ágil e forte para executar bem uma corrida, para dançar, isso é fortalecedor”. Altmann ainda lembra que praticar uma atividade física também é uma forma de estabelecer laços e lidar com sentimentos sejam eles relacionados à derrota ou ao sucesso.

 

 

Mulher demonstra alegria ao cruzar a linha de chegada da corrida da Unicamp. Ela sorri e estende os braços. Veste a camiseta laranja do ecvento. Está de rabo de cavalo. Tem os cabelos compridos e loiros.

 

 

Cruzar a linha de chegada e ultrapassar a desigualdade de gênero

Jornal da Unicamp

 

 

 

 

 



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