Pesquisadores descobrem marcadores do vírus da Zika



Trabalho de grupo da Unicamp pode vir a contribuir para diagnóstico e tratamento da doença

Texto: CARMO GALLO NETTO
Fotos: ANTONINHO PERRI
Edição de imagem: LUIS PAULO SILVA

Trabalho coordenado pelo professor Rodrigo Ramos Catharino, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, a partir de análise do sangue de pacientes infectados com o vírus da Zika, levou à descoberta de marcadores como a Angiotensina e a Angiotensina (1-7), moléculas ligadas diretamente ao processo de infecção e que ativam importantes vias metabólicas relacionadas ao desenvolvimento neural. Essas vias são caminhos de moléculas que se abrem dentro de um sistema e que podem conduzir à compreensão do percurso seguido pela infecção. Com base nestes achados e em dados da literatura, os pesquisadores entenderam que o vírus da Zika interfere diretamente nessas vias ligadas ao desenvolvimento neural. Concluíram daí que o vírus é efetivamente responsável por problemas relacionados ao desenvolvimento neuronal, como a microcefalia no caso de fetos. A pesquisa foi realizada no Laboratório Innovare de Biomarcadores da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, com a utilização de espectrometria de massas de alta resolução.

O estudo levou ainda a outro marcador, um lipídeo da classe dos gangliosídeos, moléculas abundantes no sistema nervoso central e que também fazem parte da estrutura do vírus. A descoberta fornece fortes evidências de que o aumento de gangliosídeos em indivíduos afetados pelo vírus da Zika pode levá-los a desenvolver a síndrome de Guillain-Barré, uma condição autoimune em que o próprio organismo ataca o sistema nervoso central, levando-o à degeneração. Para Catharino, a combinação desses resultados serve como base para futuros estudos nas áreas de diagnóstico e terapias para o vírus da Zika.

Financiada pela Fapesp, a pesquisa, que faz parte do projeto de doutorado do aluno Carlos Fernando Melo, teve ainda a participação dos farmacêuticos Jeany Delafiori, Diogo Noin de Oliveira, Tatiane Melina Guerreiro, Cibele Zanardi Esteves; da biomédica Estela de Oliveira Lima; da química Victoria Pando-Robles, da Unidad de Proteómica do Instituto Nacional de Salud, Cuernavaca, México; e da Rede Zika Unicamp Network,  criada por iniciativa de pesquisadores da Universidade com a finalidade de produzir estudos e conhecimentos que possam levar a desenvolvimentos significativos no combate ao Zika. O trabalho deu origem a artigo publicado no periódico Frontiers in Microbiology, intitulado “Serum metabolic alterations upon Zika infection” – Alterações metabólicas no soro a partir da infecção por Zika.

Alterações metabólicas

O Zika vírus surgiu em meados do século XX na floresta de Zika, na África, e os primeiros relatos dão conta de sua grande transmissibilidade entre humanos. Através de mutações, o vírus passou a ser transmitido pelo mesmo mosquito da dengue, que prolifera na América. Relatos revelam que mulheres grávidas picadas pelo mosquito contaminado geram bebês com cérebros menores que o normal, o que se denomina microcefalia. Estudos mostram que o Zika pode induzir perda de neurônios em células nervosas em fase de intensa multiplicação, caso dos fetos, impedindo que o cérebro se desenvolva normalmente.

Com o estudo, os pesquisadores se propuseram a identificar as alterações no sangue de pais e mães de crianças infectadas com o Zika vírus. Neste particular, e esta é a novidade, tratam-se dos primeiros relatos de alterações de vias metabólicas do soro sanguíneo descritas diretamente a partir de um paciente infectado e não de animais experimentais ou do cultivo de células in vitro.

 

Foto: perri
O professor Rodrigo Ramos Catharino, coordenador do trabalho, em sua sala e com o grupo envolvido no projeto: base para futuros estudos nas áreas de diagnóstico e de terapias

 

Foto: Perri

O professor Catharino explica: “Primeiramente, determinamos marcadores que permitem caracterizar o estado patológico em questão. Para tanto, os resultados das análises do plasma desses pacientes foram comparados com os provenientes do grupo de controle constituído por indivíduos sadios. Através das diferenças encontradas, são identificadas moléculas que se originam em decorrência da infecção e que podem constituir marcadores da doença e, portanto, só se encontram nos infectados. A hipótese então aventada é a de que esses marcadores seriam os responsáveis pela abertura de novas vias metabólicas”. Para os pesquisadores, então, esses caminhos metabólicos podem levar à explicação do que ocorre no organismo infectado pelo Zika.

O que acontece é que as moléculas originárias da infecção, possíveis marcadores, geram vias metabólicas, conduzindo ao envolvimento de um sistema interno ao organismo. Isso já tinha sido constatado em decorrência da dengue e do H1N1. A mesma hipótese agora é aventada para o vírus da Zika. Esses conhecimentos, que podem vir a ser úteis no desenvolvimento de diagnósticos e tratamentos, no entendimento dos pesquisadores, deverá desencadear uma cascata de trabalhos correlacionados. Catharino enfatiza que as moléculas presentes nos organismo contaminados precisam ser ainda validadas como biomarcadores para o Zika, pois aparecem também nos casos de dengue e de H1N1 e, portanto, não têm especificidade. No Laboratório Innovare de Biomarcadores a procura por respostas às perguntas suscitadas pelo trabalho continua, em que pese a escassez de verbas.

Resumindo, Estela de Oliveira Lima, umas das jovens pesquisadoras, afirma: “O objetivo foi a investigação de moléculas em pacientes infectados com o Zika vírus e que pudessem indicar quais caminhos seriam ativados em decorrência da doença. O estudo ajuda, também, a entender quais são as semelhanças e diferenças em relação a outras arboviroses, ou seja, entre doenças virais transmitidas por mosquitos”.

Jornal da Unicamp



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