Atlas abre caminho para ensino bilíngue em escola indígena



Grupo envolvido em projeto de extensão da Unicamp produz também materiais didáticos complementares para aldeia paulista

Texto: THALES VILELA LELO (Labjor) | Especial para o Jornal da Unicamp
Fotos: ANTONINHO PERRI
Edição de imagem: LUIS PAULO SILVA

Equipe multidisciplinar coordenada pelo professor Vicente Eudes Lemos Alves, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, acaba de entregar um Atlas didático bilíngue, redigido em guarani e português, para escolas públicas situadas na Terra Indígena Rio Silveira, localizada entre os municípios de Bertioga, Salesópolis e São Sebastião, no litoral paulista. A produção do material de apoio didático é uma etapa de projeto de extensão comunitária desenvolvido com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PREAC) desde outubro de 2013. Alves, que também é diretor da seção de Campinas da AGB (Associação dos Geógrafos Brasileiros), estabeleceu contato com a aldeia indígena do povo Guarani Mbyá e, desde as primeiras conversas com os membros da comunidade, surgiu o interesse comum em produzir materiais que pudessem ser utilizados pelos alunos da Escola Estadual Indígena Txeru Bá é Kua-i e da Escola Municipal Indígena Nhenmo `E ́ Á Porã, ambas situadas na aldeia.

Para o coordenador do projeto de extensão, a reivindicação dos moradores da Terra Indígena Rio Silveira surgiu de um descompasso entre suas tradições e o conteúdo pedagógico até então oferecido nas escolas da aldeia. Embora a Constituição Brasileira garanta aos povos indígenas o direito de terem acesso a um modelo educacional bilíngue, nas escolas da comunidade o material didático oferecido aos estudantes é todo redigido em português e não possui nenhum conteúdo voltado ao ensino dos saberes tradicionais do povo guarani. Com o objetivo de solucionar esta divergência entre a realidade dos índios Guarani Mbyá e o conteúdo pedagógico oferecido nas escolas de Rio Silveira, dois professores da aldeia, Sérgio Macena e Antônio Macena, solicitaram à equipe coordenada por Vicente Alves que produzisse materiais didáticos que pudessem ser adotados na educação das crianças da comunidade.

 

Foto: Perri

A pesquisadora Cíntia dos Santos Pereira da Silva e o professor Vicente Eudes Lemos Alves, coordenador do projeto | Foto: Antoninho Perri

 

 

Além do Atlas que retrata a história do povo guarani, sua cosmologia e o processo de construção da reserva indígena reconhecida pela Fundação Nacional do Índio (Funai), os membros do projeto de extensão da Unicamp também elaboraram um material de alfabetização em guarani para as crianças da aldeia (intitulado Mbyá Ayvu), um glossário de plantas e animais representativos da região (nomeado Ka’aguy Regua Kuaxia), um calendário escolar com as datas comemorativas e ritualísticas dos Guarani Mbyá e mapas com os pontos territoriais de referência para a comunidade, desenvolvidos a partir das indicações dos próprios indígenas – o método utilizado na elaboração desses mapas é conhecido como cartografia social participativa.

Espaços de diálogo

Para Cíntia dos Santos Pereira da Silva, doutoranda em Geografia pela Unicamp e integrante da equipe do projeto de extensão, a experiência de convivência com a população de Rio Silveira durante a preparação dos materiais de apoio didático propiciou um aprendizado significativo. “O grupo de extensão aprendeu muito com eles. Aprendemos outras formas de enxergar o cotidiano e o mundo”, afirma.

Para a pesquisadora, o diálogo com o povo Guarani Mbyá também permitiu que a equipe do projeto refletisse sobre a qualidade do ensino público oferecida aos jovens indígenas. O fato de os alunos das escolas localizadas na aldeia não terem acesso a um ensino bilíngue dificulta não só o aprendizado de sua cultura, como inviabiliza sua própria permanência no sistema educacional. Cíntia observa, por exemplo, que o calendário indígena possui datas ritualísticas que não são compatíveis com o calendário adotado pelas escolas estaduais paulistas. Por esta razão muitos jovens abandonam os estudos ainda no Ensino Médio caso queiram seguir as tradições do povo Guarani Mbyá.

O professor Vicente Alves complementa que o que os indígenas buscam harmonizar o modelo escolar convencional com seus saberes tradicionais. Segundo o professor do IG, “esses alunos também têm o desejo de entrar na Universidade”. A função social do projeto de extensão coordenado por ele é colaborar para que a sinergia de sistemas de ensino aconteça na prática. Vicente destaca que o material de apoio didático desenvolvido por sua equipe em parceria com a comunidade de Rio Silveira foi entregue à Secretaria Municipal de Bertioga, que se dispôs a incorporá-lo nas escolas indígenas da região. “Esse é um projeto piloto, mas, assim que o finalizarmos, temos a pretensão de reproduzir a experiência em outras comunidades indígenas no Estado de São Paulo”.

A equipe do projeto de extensão coordenada por Alves é atualmente composta por alunos da graduação e da pós-graduação em Geografia, Geologia, Artes e Linguística, além dos professores e líderes da Terra Indígena Rio Silveira. A tradução dos materiais de apoio didático para a língua guarani é realizada por Ivana Pereira Ivo, docente na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e doutoranda em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. O coordenador do projeto enfatiza que todo o material produzido pelos pesquisadores é revisado pelos membros da aldeia.

Jornal da Unicamp



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