Raridades da restinga



Para preservar, é preciso conhecer. Foi partindo dessa premissa que o biólogo José Elvino do Nascimento Júnior decidiu pesquisar a riqueza florística de um trecho de restinga localizado na região norte de Sergipe para a sua dissertação de mestrado. O trabalho foi apresentado ao Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, sob orientação da professora Maria do Carmo Estanislau do Amaral. Depois de dois anos de coletas e análises, o pesquisador identificou cerca de 350 espécies no local, número considerado alto em comparação à diversidade normalmente encontrada nesse tipo de ecossistema. “Dentre as espécies identificadas, não havia o conhecimento da ocorrência de cerca de 150 delas em Sergipe. Além disso, também localizamos duas espécies raras”, informa Nascimento Júnior. Um dos resultados do trabalho foi a criação de um site que dispõe de ferramentas que tornam a identificação das plantas mais simples.

Natural de Sergipe, o autor do trabalho afirma que pouco se conhece sobre a biodiversidade do Estado, por causa da carência de pesquisas científicas sobre o tema. Nascimento Júnior conta que decidiu pesquisar um trecho de restinga, entre os municípios de Barra dos Coqueiros e Santo Amaro das Brotas, por se tratar de uma área bem preservada, mas que já corre riscos em razão da especulação imobiliária. Além de projetos de construção de condomínios de luxo, o local também está ameaçado por causa das atividades de exploração de areia para uso na construção civil, que ocorre bem ao lado.

O pesquisador lembra que a área incluída no estudo deverá fazer parte do futuro Parque Estadual das Dunas. Entretanto, depois de a medida ter sido discutida pela sociedade e aprovada pelas diversas instâncias competentes, o governador do Estado ainda não assinou o documento criando a área de preservação. “A sociedade está esperando há três anos por essa decisão. Até o momento, o governador não deu qualquer justificativa para essa demora”, lamenta. A partir da constatação da vasta riqueza florística daquele trecho, Nascimento Júnior espera ampliar o argumento em favor da instituição do parque. “Devo voltar brevemente para Sergipe, para me reunir com representantes de organizações não governamentais e Ministério Público. Queremos pressionar o governo do Estado a aprovar logo a unidade de conservação”, adianta.

Retornando ao trabalho acadêmico, o pesquisador conta que durante um ano e meio percorreu os cerca de 2,5 mil hectares da área para coletar amostras de plantas. O trabalho foi executado em diversas épocas do ano. Em seguida, ele levou o material para ser analisado e identificado no herbário da Universidade Federal de Sergipe (UFS). “O resultado do trabalho nos surpreendeu. Nós tínhamos ideia de que aquele trecho de restinga seria muito rico em termos de biodiversidade, mas não esperávamos tanto. Enquanto lá nós identificamos 350 espécies, outras áreas no Nordeste com a mesma formação vegetal registram entre 70 a no máximo 200 espécies”, detalha Nascimento Júnior.

Segundo ele, ainda não se sabia que em Sergipe ocorriam pelo menos 150 das espécies encontradas. “Algumas delas eram consideradas endêmicas de trechos do litoral da Bahia. Sobre outras, sabia-se que ocorriam em trechos do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nós acreditamos que o desconhecimento em torno delas deva-se ao fato de existirem poucas pesquisas sobre o tema no Estado”, arrisca o autor da dissertação. Ainda conforme ele, durante o trabalho também foram encontradas duas espécies consideradas raras, cujos nomes científicos são Cissus pinnatifolia e Manihot breviloba, ambas trepadeiras e conhecidas até o momento apenas da área litorânea de Sergipe.

Flora eletrônica

Uma das consequências práticas da pesquisa feita por Nascimento Júnior foi a criação de um site que conta com ferramentas que facilitam a identificação das plantas. Esse trabalho contou com a colaboração do pesquisador Denis Filer, da Universidade de Oxford (Inglaterra), que veio a Campinas como pesquisador visitante para desenvolver um sistema que facilite a elaboração de floras eletrônicas. Essa colaboração com a orientadora da dissertação, professora Maria do Carmo Estanislau do Amaral, foi apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O site está localizado em um servidor no Cenapad/Unicamp, que também foi adquirido pela professora com apoio da Fapesp. O objetivo da iniciativa é divulgar mais amplamente os conhecimentos gerados pelos estudos em botânica, notadamente na área da taxonomia. Segundo Nascimento Júnior, a vantagem do site sobre uma publicação em papel, por exemplo, é que o primeiro pode ser atualizado continuamente. “Além disso, se o pesquisador estiver realizando um trabalho de campo, ele poderá trocar as publicações que leva para consulta por um tablet, que é muito mais leve de ser carregado”, compara.

O autor da dissertação acrescenta que a busca no site é marcadamente intuitiva e que a identificação das espécies é facilitada graças à possibilidade de usar chaves interativas de entradas múltiplas em substituição às convencionais chaves dicotômicas. “Por isso, o site pode ser consultado tanto por um cientista quanto por um botânico amador ou um estudante do ensino médio”, sustenta. Explicando melhor, as chaves interativas de entradas múltiplas possuem a vantagem de não seguir um caminho rígido. Assim, a identificação não depende da análise de caracteres específicos da planta, como o número de estames ou a posição do ovário, como ocorre nas chaves dicotômicas. “Com as chaves interativas, se você tiver uma amostra que não contém estames, por exemplo, você pode considerar qualquer outra parte da planta para identificá-la”, explica Nascimento Júnior.

Uma das dificuldades enfrentadas por pesquisadores que trabalham com ecologia, continua o biólogo, é entender os termos usados pela taxonomia. Frequentemente, esses pesquisadores são forçados a recorrer a um glossário ou dicionário para encontrar uma definição. Para esses casos, o site, que atende ao conceito de flora eletrônica ou eFlora, oferece um recurso muito útil. “Ao deparar com uma palavra desconhecida na chave de identificação, basta que o usuário coloque o cursor sobre ela, para que surja imediatamente na tela um quadro com a definição do termo, acompanhado de uma foto da estrutura pesquisada”, esclarece Nascimento Júnior.

O autor da dissertação lamenta apenas que sites como o criado por ele ainda não mereçam total reconhecimento por parte das agências de fomento. Isso ocorre, de acordo com ele, porque ainda se tem a ideia de que essa ferramenta pode ser desenvolvida por qualquer pessoa e que o seu conteúdo seja frequentemente superficial. “Nós pensamos de maneira diferente. Tanto é assim que, no último capítulo da dissertação, nós propomos ações para evitar que haja essa superficialidade. A nossa sugestão é que as floras eletrônicas sejam vinculadas a periódicos científicos ou a instituições acadêmicas e de pesquisa. Assim, do mesmo modo como ocorre com as publicações impressas, elas também poderão ser continuamente avaliadas pelos pares científicos”.

Além das vantagens já mencionadas por Nascimento Júnior, o pesquisador lembra que a construção de uma eFlora fica muito mais barata do que a publicação de um livro. “Além disso, desde que esteja abrigada em um servidor estável e com bom espaço de armazenamento, a flora eletrônica pode conter um grande número de fotos, o que não seria possível em um livro. O site que criamos a partir da pesquisa na restinga de Sergipe já está em operação e conta com 270 espécies cadastradas e aproximadamente 3 mil imagens. Brevemente, chegaremos às 350 espécies identificadas e a um número ainda não estimado de fotos”, adianta o autor da pesquisa, que contou com bolsa de estudo concedida pela Fapesp. Conforme o biólogo, como o site ainda não é avaliado pelas agências de fomento, o trabalho também deverá ser transformado em livro. “Como a dissertação ficou extensa, com mais de 500 páginas, estamos buscando financiamento para viabilizar a sua publicação”. Conforme o biólogo, o estudo revela mais uma vez que a flora do Brasil de uma maneira geral, e não apenas a da Amazônia, é ainda mal conhecida.

(Jornal da Unicamp)



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